Como eu gostava que as palavras proferidas no último
parágrafo, deste texto (texto que se encontra no final do post) do Daniel Oliveira, fossem uma realidade nos partidos em
Portugal, que se deixassem de pensar nos partidos e nas lutas de poder e
pensassem no País, no seu estado se Urgência em que se encontra e que tomassem
as medidas justas e necessárias para mudar o rumo que nos tem levado ao abismo,
e a um país a cada dia que passa cada vez mais empobrecido e que mais parece
que em vez de evoluir, regride e para no tempo e fica à espera que os outros
façam por nós, porque segundo os nossos governantes e políticos, os outros é
que sabem e é que mandam, nós somos ovelhas do rebanho que dizemos
constantemente amem a tudo o que nos dizem, mesmo sabendo que isso nos trará
consequências negativas para as nossas vidas no presente e no futuro.
Preocupa-me o estado de marasmo social em que o país se
encontra, um país cheio de talento, e basta ver os lugares que ocupam os
portugueses (falo dos cidadãos anónimos, não da escumalha dos pseudopolíticos
que estão na EU, no BCE, ou na Unicef; falo sim do “Quim” e do “Manuel” ou da “Maria”,
que além fronteiras são vistos como mais valias para as Empresas, para as
Multinacionais, para as Universidades, para os centros de investigação, para um
simples oficio) e que são cotados como mais-valias e como grande potencial
humano, e que em Portugal simplesmente foram deixados na prateleira, ignorados
ou até mesmo desprezados e que viram no estrangeiro ser-lhes reconhecido o seu
valor e utilidade no evoluir da sociedade. Um País como o nosso que desperdiça
riqueza como esta só merece estar no fosso em que se encontra, porque quem nos
lidera ao nível governativo e até mesmo em termos de liderança das empresas,
desperdiça a maior riqueza de um país que é o seu povo, povo como um todo e não
Povo de gente das classes mais baixas, mas sim Povo de cidadãos de uma nação
que já viveu tempos gloriosos e de descobertas e conquistas e que agora se
resigna ao mando dos outros.
Pobre e triste país este o meu…
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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012
por Daniel Oliveira
Confesso que às vezes sou tomado pelo desalento. E isso já não me acontece ao ver o telejornal ou ao ler os jornais. É mesmo à minha volta que me vão aparecendo as piores notícias. Amigos com 40 anos que regressam, com filhos, a casa dos pais. Ou que, mesmo ficando em casa, dependem dos pais para a sua sobrevivência. E os pais estão, eles próprios, à beira da ruína. Amigos que ficaram sem emprego e olham à sua volta sem qualquer esperança de saírem do buraco em que caíram. Para a maioria nem é esse o problema. Porque emprego, na nossa geração, há muito que é uma miragem. Apenas perderam quase todos os rendimentos e vivem de biscates sem qualquer regularidade. O momento para pagar a segurança social ou os impostos será, eles sabem bem, a sua sentença de morte. Alguns,quase sempre os mais qualificados, vão-se embora. Outros aguentam o mais que podem, porque é aqui que têm a casa para pagar, a família para ajudar, a rede de contactos que os pode a vir apoiar numa qualquer saída. Mas sabem que é uma questão de tempo até irem embora. Outros têm pequenos negócios e ganham coragem para os fechar, pois sabem que cada dia que passa é mais um dia em que as suas dívidas engordam. Os que procuram emprego, tenham o liceu, a licenciatura, um mestrado ou um doutoramento, o máximo que sonham é com um lugar num call center. E mesmo esse é improvável. Os que têm emprego estão dispostos a aceitar todos os abusos e humilhações. Repetem para si próprios, e sou eu próprio que não os desminto, que perder o emprego agora seria uma condenação sem fim à vista. Já todos passaram o tempo em que faziam cortes em tudo o que não seja básico. A partir daqui é a pobreza.
Depois volto ao meu ativismo político. Nos partidos ou nos movimentos sociais estão pessoas como eu ou como os meus amigos. Que conhecem a crise ou a vivem na pele. Todos repetem, como eu repito, que vivemos um momento de emergência nacional. Olham para o País e o que veem é desperdício de talento. Tirando uma ou outra pessoa protegida da crise e cega para as suas consequências, ela não é uma abstração. Angústia. É isso que se sente em todo o lado, em cada momento. A parte difícil é tirar da evidência do momento de emergência nacional, da desesperada excepcionalidade do momento que vivemos, todas as consequências. Quando chega à política o debate continua, muitas vezes, como sempre foi. Como se pudéssemos esperar dez ou vinte anos para encontrar uma alternativa. Como se nos pudéssemos dar ao luxo de deixar que todo o País desmorone para dessa catástrofe nascer uma solução. Como se pudéssemos esperar chegar ao estado grego para ver o nosso partido crescer como aconteceu com o Syriza. Mesmo sabendo como isso é altamente improvável, para não dizer menos.
Passarei este fim de semana num pavilhão com mais umas centenas de militantes do meu partido. A discutir o que ele deve fazer para contribuir para uma solução. É público que me envolvi no processo de debate interno e que integro uma moção alternativa à da direção. Não usarei este espaço para fazer qualquer tipo de campanha. Apenas quero dizer uma coisa mais ou menos simples. Não estarei no congresso do PS ou do PCP. Não poderei determinar se os socialistas se decidem, de uma vez por todas, a abandonar o beco sem saída em que se enfiaram e a romper com um memorando da troika que nos leva, seja qual for o empenho com que é aplicado, para a desgraça. Não poderei determinar se o PCP consegue abandonar a cultura de sectarismo e autosuficiência que, nos últimos 40 anos, não tem surtido grandes resultados. Estarei na Convenção do Bloco de Esquerda. E só poderei contribuir para o que ele decidir, sem fazer futurologia sobre o papel que outros venham a ter. E a única coisa que desejo, para além de questões internas que não cabem neste espaço, é que a defesa de um governo de esquerda que corte com a troika não seja apenas um cartaz. Seja uma estratégia de quem está consciente da situação do País.
O Bloco de Esquerda só pode fazer a sua parte: trabalhar para essa convergência com empenho e não facilitar a vida aos que, no PCP, querem continuar orgulhosamente sós e aos que, no PS, preferem convergir com a troika e com o PSD. Ser exigente com os outros passa sempre por ser exigente connosco próprios. Dando o exemplo numa cultura antisectária e procurando, em todos os espaços onde isso seja possível - incluindo o local -, a convergência urgente. Volto ao primeiro parágrafo deste meu texto: vencer o desalento passa por perceber a urgência. No País, as coisas não estão como estavam. Cabe a cada partido refletir, em atos, essa mudança. Pelo meu lado, farei a minha parte no único partido em que posso, como militante, determinar alguma coisa. Esperando que os muitos comunistas que gostavam de ter um partido aberto ao diálogo unitário façam o mesmo no PCP. Esperando que os muitos socialistas que exigem um corte com o memorando da troika e uma renegociação da dívida façam o mesmo no PS. É verdade: não estarão a trabalhar em prole dos seus partidos. É o País que está em causa.
Publicado no Expresso Online